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IA em tudo: quando a feature vira o problema

Editores de texto, gerenciadores de arquivos, clientes de email — ferramentas que funcionavam bem estão sendo engordadas com IA que ninguém pediu. O custo é real: apps mais lentos, privacidade comprometida e assinaturas para resources que a maioria não usa.

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Marcelo Matz @marcelomatz

TL;DR — Por que a IA está em todo software?
A proliferação da Inteligência Artificial em softwares utilitários (como editores de texto e clientes de email) ocorre como uma força motriz para justificar novas rodadas de investimento e inflar assinaturas "Premium". Em vez de resolver problemas reais dos usuários, a adição indiscriminada de botões genéricos "Gerar com IA" compromete a simplicidade original dos aplicativos. Como consequência direta, esses softwares enfrentam severa degradação de performance (maior consumo de RAM), introduzem complexidade desnecessária na interface e levantam riscos silenciosos de privacidade devido ao envio de dados pessoais para treinamento de modelos externos.


Há alguns anos, o Notion era uma ferramenta de notas poderosa e flexível. O Figma era um editor de interfaces rápido e colaborativo. O Grammarly corrigia gramática. O Spotify tocava música.

Hoje, todos têm IA. Todos pedem assinatura premium para usar a IA. Todos exibem um botão "Gerar com IA" em lugares que você não esperava. E a maioria de nós não pediu por isso.

O padrão que virou epidemia

Existe um ciclo previsível acontecendo na indústria de software agora mesmo:

  1. Produto simples resolve um problema real muito bem
  2. Produto cresce, precisa justificar valuation ou nova rodada de investimento
  3. Produto adiciona IA como diferencial competitivo
  4. Interface fica mais complexa, app fica mais pesado, plano gratuito fica mais restrito
  5. Usuários que só queriam a funcionalidade original ficam reféns de uma ferramenta inchada

O Slack adicionou um resumo inteligente de canais por IA. O Zoom agora tem um assistente que toma notas. O Photoshop tem "Preenchimento Generativo". O GitHub tem Copilot integrado no pull request. A Apple adicionou Apple Intelligence no sistema operacional inteiro.

Nenhuma dessas features é necessariamente ruim. O problema é a suposição implícita de que todo usuário quer elas — e que toda ferramenta deve tê-las.

O preço invisível

Quando uma empresa adiciona IA a um produto existente, o custo raramente é só financeiro. Existem outros preços sendo pagos:

Performance. Um app que antes abria em dois segundos agora inicializa um modelo de linguagem em segundo plano. Um editor de texto que consumia 200MB de RAM agora consome 800MB porque está "aprendendo" o seu estilo de escrita.

Privacidade. Para que a IA seja útil, ela precisa de dados. Seus documentos, suas mensagens, seus arquivos. Muitas vezes enviados para servidores externos. Muitas vezes usados para treinar modelos. Muitas vezes com políticas de privacidade que mudaram discretamente em uma atualização que você não leu.

Complexidade. Interfaces que eram diretas ao ponto agora têm abas, painéis laterais e modais explicando o que a IA pode fazer por você. A curva de aprendizado aumentou sem que a funcionalidade essencial tenha melhorado.

Custo. O plano gratuito que funcionava perfeitamente agora é artificialmente limitado para que a IA — disponível apenas no plano Pro — pareça necessária.

Ferramentas simples viraram produto de nicho

Há uma ironia amarga acontecendo: as ferramentas que não adicionaram IA estão se tornando as escolhas premium para quem sabe o que está fazendo.

O Obsidian — um editor de notas que funciona com arquivos locais em Markdown, sem conta, sem cloud obrigatória, sem IA embutida — tem uma comunidade crescente de usuários que migraram justamente porque o Notion ficou pesado demais. O Heynote é um bloco de notas temporário sem banco de dados, sem sincronização, sem IA. O Zed é um editor de código rápido que escolheu não ter IA embutida por padrão enquanto o VS Code adicionou mais um painel de chat.

A simplicidade virou diferencial. Isso diz algo sobre onde a indústria chegou.

O que IA boa parece na prática

Não estou argumentando que IA em software é sempre ruim. Estou argumentando que a maioria das implementações atuais não passa pelo teste mais básico: essa feature resolve um problema real que o usuário tem, ou ela existe porque o produto precisava de um slide de IA na próxima rodada de funding?

IA boa é invisível ou opcional. O Grep que sugere regex quando você escreve em linguagem natural. O compilador que explica o erro em vez de só apontar a linha. A ferramenta de design que remove o fundo de uma imagem com um clique — sem abrir um painel de "Studio de IA".

IA ruim é intrusiva e paternalista. O assistente que interrompe o fluxo para sugerir que você "reformule este parágrafo". O app de notas que analisa seu conteúdo e sugere como você deveria se sentir sobre ele. O cliente de email que escreve as suas respostas por você — porque aparentemente escrever um email é um problema que precisava de solução.

O que fica

Ferramentas de software existem para resolver problemas. Quando a feature de IA resolve um problema real que o usuário tem, ela merece estar lá. Quando ela existe para diferenciar o produto na hora da venda e gerar pressão de upgrade, ela é ruído.

A questão não é se IA deve estar em software. A questão é por que ela está lá — e se alguém parou para perguntar ao usuário antes de adicioná-la.